O São João da tradição – as cidades pequenas do interior.

São João é época boa pra todas as idades: do velho ao moço todos têm vez na festa. Continuando hoje a série sobe as diversas formas de festejar o São João vamos falar sobre a festa mais tradicional. As festas das cidades pequenas de interior são um charme à parte e trazem as raízes e tradições dos festejos.

Cidades do interior

As cidades do interior costumam ter o São João mais tradicional e mais calminho. Se você quer conhecer como é São João de verdade (e não é igual às novelas da Globo, digo logo!) tem de ir nestas cidades.  Não existe uma cidade que sobressaia, até porque se assim fosse viraria São João comercial como os grandes que já falamos e perderia a graça. Vou contar como era lá na cidade onde eu morava, São Caetano, do ladinho de Caruaru.

Aqui se segue mais um relato das  doces memórias dos São Joãos  da minha infância mesmo. Era um tempo muito, muito feliz, onde a fogueira aquecia meu coração, o forró e a quadrilha me aproximavam da família querida e a noite de São João tinha gostinho de pamonha das boas e cheiro de fumaça!

Tem festas familiares com música, geralmente forró pé-de-serra, quadrilhas e bacamarteiros. Os adultos se vestem de xadrez, os homens colocam lenços e fazem os bigodes. As mulheres fazem tranças nos cabelos. As crianças festejam à caráter: todas vestidas de matutos.

São João de cidade pequena é assim: cada família faz sua fogueira que irá acender na frente de casa na noite de São João e faz uma festa. Se a família tem grana sobrando faz festa grande, se é mais humilde comemora de forma mais simples, mas dificilmente você verá alguma casa sem festejar a data. As famílias saem de casa em casa se confraternizando também. Ao lado da fogueira estão invariavelmente as crianças. Eu sei que é um perigo, mas elas sempre estão ali ao redor para soltar fogos. Tem a chuvinha e o traque de massa pros mais pequenos, os maiorzinhos soltam os peidos de véia e as cobrinhas (essas são muito perigosas), os adultos soltam rojões, bombas e os vulcões. Os vulcões são uma graça. Eles têm um colorido especial e não fazem muito barulho, ao contrário da maioria dos fogos.

Lá dentro da casa (às vezes a minha mesmo ou a do meu Tio Gilvan) estará a comida. Ahhh, a comida! Tem pé-de-moleque, pamonha, canjica, milho assado e cozido, munguzá… Em algumas casas eles fazem até palhoças no meio da rua com a palha de coqueiros pra que o arrasta-pé fique protegido da chuva (aqui invariavelmente chove nesta época). Dentro da palhoça estará o forró! No São João de interior predomina o forró pé-de-serra com o sanfoneiro, zabumbeiro e triangueiro. O repertório é quase que exclusivamente Luis Gonzaga. São aquelas canções que todos conhecem, que cantam a vida do homem do interior.

Os versos do Gonzagão embalam a noite de São João.

Na festas do meu interior ainda rolava a participação especial dos bacamarteiros. Baca o quê? Os bacamarteiros são espécie de guardas que tinham uma função de proteção há muito tempo atrás. Creio que eles surgiram ainda na época do império. Hoje em dia suas infantarias são só recreativas e nesta época do ano saem pelas cidades se apresentando. Eles carregam seus bacamartes cm pólvora e dão tiros pro ar, pro chão. É uma barulheira só, mas é muito alegre. Eles saem em filinha indiana, geralmente eles têm uma bandinha de pífano que os acompanha,  parando nas festas das casas em que são convidados se apresentando.

Na noite de São João também é hora de predizer o futuro! Aí entram em cena as simpatias e promessas para Santo Antônio. Tem simpatia pra descobrir o nome do amado, pra saber com quantos anos a menina irá se casar… Ixi, é muita opção pras moças casadouras! Kakakakak

Lá pelas altas horas da noite chega uma das horas mais esperadas: a quadrilha! Cada um arruma seu par. Na minha família havia 2 quadrilhas (o troço era organizado): uma dos adultos e outra das crianças. Toda quadrilha que se preze tem um puxador. Sua função é animar os dançarinos e cantar os passos. Sim, em toda quadrilha há passos – tem o ‘serrote’, ‘olha a chuva’, ‘olha a cobra’, ‘passeio na roça’, ‘anarriê’ e ‘alavantú’. Claro que quem dança quadrilha desde pequeno, ao ouvir o puxador anunciar um passo, já sabe o que tem de fazer. Aí é só se preparar e esperar o puxador dizer o comando pra executar o passo.

Há as quadrilhas estilizadas que fazem competições de dança e estas são aquelas que têm o teatrinho do casal de noivos, do padre, do pai da noiva que sempre quer que o noivo, contra sua vontade, se case com sua filha… Mas essas são quadrilhas-show, digamos assim. No interior se dança a quadrilha menos ensaiada, é aquela que vimos desde criança os adultos dançarem e cujos passos passam de geração para geração. É uma dança que se aprendeu olhando e dançando, um retrato dos mais lindos da força da tradição de um povo.

O rala-bucho irá até quando os forrozeiros quiserem. Enquanto houver fogueira, comida e forró todos estarão festejando. Se você tiver a oportunidade de ser convidado pra uma festa dessas não a deixe passar!

Para ver as outras formas de festejar o São João clique nos links abaixo:

O São João de Caruaru e Campina Grande.

Patos, o modinha entre os jovens no São João.

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3 Respostas para “O São João da tradição – as cidades pequenas do interior.

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