Por que ir às ruas mesmo?

Ok, esse é um blog que tem um tema: viagens e tudo que se relaciona com isso. Mas preciso abrir aqui nesse espaço um minutinho para me colocar sobre toda essa onda de protestos que estão tomando o Brasil. Portanto, peço licença aos leitores viajantes para falar para (e sobre) os leitores brasileiros.

Desde que vi as imagens de São Paulo que me sinto incomodada. Não é só pelas imagens chocantes, até porque nós, brasileiros, estamos de certa forma bastante anestesiados com esse tipo de imagem. É tanta coisa absurda rolando nas terras tupiniquins que um policial machucando um jornalista ou cidadão é ‘café pequeno’ pra gente.

O incômodo cresceu nesses dias. Cresceu mais ainda porque eu não sabia o que fazer enquanto cidadã. A mídia me contava que lá em Sampa as pessoas tinham partido para o vandalismo e por isso a polícia tinha agido com tanta crueldade. Depois não deu para segurar a mentirinha (um viva às redes sociais!) e aí o protesto que era antes anunciado (pela mesma mídia) como “baderneiros” e “vândalos” que protestavam contra um aumento de R$ 0,20  virou um protesto contra ‘tudo que está aí’.

Agora a mídia tenta se aproveitar da onda e se desculpa pelo ‘engano’ cometido dando força para o movimento ficar cada dia mais alienado. É Datena na TV dizendo que é isso mesmo, tem de lutar, que o momento é histórico, ele quase me fez derramar uma lágrima. Mas fico bastante cabreira com a mídia dando apoio e convidando a gente a tomar as ruas. Sou uma pessoa desconfiada.

Para finalizar meu mix de emoções conflituosas fui à partida Espanha e Uruguai da Copa das Confederações. Me senti por uns minutos incoerente. Nossa, logo eu que estava super mexida com as movimentações, estava lá indo curtir o jogo. Fui e passei o maior perrengue para chegar e sair da arena. Ela é linda, é verdade. Parece coisa de filme, uma belezura pros que apreciam futebol. Mas passei 1 hora e meia para pegar um ônibus, que me levou à um metrô e só consegui chegar no destino final 3 horas e 20 minutos depois de levantar a bunda da cadeira do estádio (cronometrei mesmo!). Eu não tenho carro, moro à 2 quadras do meu trabalho e só pego ônibus 1 vez por semana. Aí pensei: e provavelmente as pessoas que dependem do transporte público passam por algo próximo à isso TODO DIA.

Os dias foram se passando e eu lendo textos e mais textos, as opiniões nas redes sociais, e ainda mais desconfortável. Me sentindo perdida, em crise de cidadania. Por que eu não estava protestando na rua? O que estava acontecendo comigo? Onde está a Camila nacionalidade: brasileira que tanto reclama de questões estruturais no Brasil? Agora é a hora, não é?!

Até que ontem foi o estopim: estava saindo do trabalho quando ouvimos um barulho. Trabalho até às 21 horas e não estava sabendo de nada do Congresso sendo pacificamente ocupado, da onda de violência no Rio, das marchas em Sampa… No primeiro momento as pessoas (creio que também não estavam sabend0) gritaram: é arrastão, fecha a porta! Depois de saber do que se tratava achei tragicômico: como estamos marcados por tanta violência, o registro mental de multidão (exceto no carnaval) é: arrastão. Mermão, a que ponto chegamos?

Ouvimos o que as pessoas gritavam e aí caiu a ficha: eram os recifenses protestando. Saí para ver: eles gritavam ‘sem violência’, ‘o Brasil Acordou’, e outras cantigas. A polícia os escoltava, fechando os cruzamentos para os carros por onde o grupo passava. Eles não eram doidos de encostar um dedo em ninguém depois da lambança que fizeram à mando do governador de SP. Dudinha (nosso governador e candidato à Presidência) é esperto e tem de ficar bem na fita.

Uma menina gritou na minha direção: “vem gente! Vamos para a rua!”. Eu fiz o ‘ok’ para ela e permaneci imóvel. Me senti muito mal com aquilo. Me senti uma merda. A menina me chamava para… (para o quê mesmo?!)… sim para a rua e eu, sempre crítica e reclamona, ficava parada. Perdi minha chance de fazer algo.

É como se eu quisesse ir, a oportunidade está aí e eu, por algum estranho motivo, não me sinto à vontade de ir. Pergunto às pessoas o que é o protesto (eu ainda não entendi direito ou tenho mania de organização e preciso listar tudo) e elas me olham com uma cara de ‘você é louca, minha filha?’. Todos sabem. Menos eu.

Eu não estou dizendo que não entendo o que motiva as pessoas, mas vejo que cada um, individualmente, tem suas razões e todos estão juntos, cada um sabendo o que protesta contra.  Também ressalto que não acho o Brasil lindo e que há motivos para estar puto da vida. Há sim: a saúde é uma merda, a educação pública é uma porcaria, o transporte público é uma afronta e a forma como o nosso dinheiro é desperdiçado, roubado, mal empregado é uma vergonha. Tô de acordo em tudo que dizem. O Brasil que nos impõem é um circo e os palhaços somos nós. Ou eles pensavam que éramos.

Mas peraê: se a luta é “é contra tudo que está aí”, “não é só o aumento das passagens de ônibus”, “saúde e educação”, “PEC37”, “corrupção”, “liberdade de expressão”… Como é que a gente vai conseguir algo protestando desse jeito?

Saca só: a gente vai caminhar, gritar e a tarifa de ônibus vai baixar, por exemplo. E isso lá resolve nossos problemas? Corrupção se resolve com protesto sem um fato específico? E saúde e educação a gente resolve como? Marchamos e o governo faz plim mudando nossas escolas e hospitais? 

(Para mim, a única coisa que conseguimos de imediato é ter o direito de protestar. É a tal da liberdade de expressão. Essa está aí cada vez que saímos gritando palavras de ordem e temos nosso direito de manifestar respeitado.)

Aí percebi que essas eram minhas dificuldades de entrar de cabeça no movimento:

1. ele é muito difuso, queremos tudo (cada um querendo com maior ou menor intensidade o calo que mais aperta no seu sapato) e

2. ele não tem um plano de ação específico.

Isso para mim, que sou ultra controladora e organizada, cheia de metas e objetivos palpáveis, é um exercício intelectual daqueles. Vamos marchar e o que vamos conseguir? Não é simplesmente baixar uma tarifa de ônibus que vai resolver. Vejam só: eu, Camila, nem quero que baixem a tarifa: quero que ela permaneça a mesma (acho a diminuição inviável), mas que seja oferecido um serviço de qualidade.

E agora?! Fiquei me apegando a esses fatos. Queria ir pra rua e ao mesmo tempo não encontrando o sentido disso tudo. E super dividida. Até cogitei com meu namorado que um boicote à certos produtos poderia ser mais efetivo para resolver a situação. Mas que situação mesmo?!

Falta, na minha opinião, um foco ao movimento e um plano para consegui-lo. Mas e daí? O que se faz com um povo indignado? Essa onda de revolta não é algo legítimo? O protesto, o ir às ruas não vai mudar efetivamente nada. Mas esse extravasar da nossa indignação é parte do nosso amadurecimento nessa coisa chamada democracia. Somos bem jovens nesse troço.

O povo, nós, precisamos sentir nosso poder, experimentar essa sensação de ‘nós podemos’ para nos apoderarmos dela e de fato nos sentirmos capazes de lutar com foco e metas pelos nossos direitos. Tem um monte de coisas a serem consertadas, mas a mais importante delas talvez já esteja se ajustando: a consciência de que o poder de mudar é nosso.

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Uma resposta para “Por que ir às ruas mesmo?

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